quarta-feira, 20 de julho de 2011

O dia da morte do Padre Cícero

Centenário de Juazeiro do Norte # 98

Como não poderia deixar de ser, hoje, dia 20 de julho de 2011, a dois dias do Centenário de Juazeiro do Norte, nossa postagem faz referência ao dia da morte do Padre Cícero. Foi no dia 20 de julho de 1934 (portanto, há 77 anos) que Juazeiro amanheceu com a notícia que logo se espalhou por todo o Vale do Cariri: o "Padim Ciço" falecera.

Mas, segundo a tradição romeira e de todos aqueles que têm na sua fé uma admiração pelo Padre Cícero, a crença é de que ele "não morreu", mas fez uma viagem aos céus para interceder em nome do humilde povo nordestino.

Outra tradição é a de grande parte da população de Juazeiro do Norte se vestir de preto no dia 20 de todos os meses. Muitos começam esses dias, inclusive, na Missa celebrada em homenagem à memória do fundador de Juazeiro do Norte.

Na nossa jornada sobre o Centenário de Juazeiro do Norte, em pelo menos três postagens temos algum tipo de referência ao falecimento do Padre Cícero e ao luto pela data de sua morte: na postagem # 03 temos a canção "Beata Mocinha", cantada por Luiz Gonzaga, falando sobre "a viagem feita pelo Padre Cícero", que foi "pedir proteção aos romeiros do Norte"; na postagem # 16 há um vídeo de D. Assunção Gonçalves, testemunha ocular do 20 de julho de 1934 em Juazeiro, relatando para as lentes de Daniel Walker como foi o dia da morte do Padre Cícero; e na postagem # 37 mais uma canção de Luiz Gonzaga, "Viva meu padim", que entoa os versos "olha lá no alto do Horto / ele tá vivo, o Padim não tá morto".

Nesta postagem # 98 apresentamos três textos que fazem referência à "partida" do Padre Cícero no dia 20 de julho. Inicialmente, um relato de Lourival Marques, filho de um dos secretários do Padre Cícero, que narra o que ele presenciou no dia do falecimento do Padre. O texto está reproduzido no livro Milagre em Joaseiro, de Ralph Della Cava (Editora Paz e Terra, 1976). E, na sequência, dois poemas de Pedro Bandeira e um de Dr. Edvan Pires, publicados na antologia Juazeiro poético (organizada por Raimundo Araújo), que destacam a vida, a morte e a saudade do Padre Cícero Romão Batista.
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Morte do Padre Cícero
Lourival Marques (1934)

Acordei pelo tropel de gente que corria pela rua. Fiquei sem saber a que atribuir aquelas carreiras insólitas. Quando cheguei à janela tive a impressão de que alguma coisa monstruosa sucedia na cidade. Que espetáculo horroroso, esse de milhares de pessoas alucinadas, correndo pelas ruas afora, chorando, gritando, arrepelando-se... Foi então que se soube... O Padre Cícero falecera... Eu, sem ser fanático, senti uma vontade louca de chorar, de sair aos gritos, como toda aquela gente, em direção à casa desse homem, que não teve igual em bondade e nem teve igual em ser caluniado.

Um caudal de mais de 40 mil pessoas atropelava-se, esmagava-se na ânsia de chegar à casa do reverendo. O telégrafo transbordava de pessoas com telegramas para expedição, destinados a todas as cidades do Brasil. Para fazer ideia, é bastante dizer que só em telegramas, calcula-se ter gasto alguns contos de réis. Logo que os telegramas mais próximos chegaram ao destino, uma verdadeira romaria de dezenas de caminhões superlotados, milhares e milhares de pessoas a pé, marcharam para aqui. Joaseiro viveu e está vivendo horas que nem Londres, nem Nova Iorque viverão jamais... O povo, uma onda enorme, invadiu tudo, derrubando quem se interpôs de permeio, quebrando portas, passando por cima de tudo. Pediu-se reforço à polícia, mas o delegado recusou, alegando que o Padre era do povo e continuava a ser do povo.

Arranjaram, no entanto, um meio de colocar o cadáver exposto na janela, a uma altura que ninguém pudesse alcançar e, durante todo o dia, várias pessoas encarregaram-se de tocar com galhos de mato, rosários, medalhas e outros objetos religiosos, no corpo, a fim de serem guardados como relíquias. Milhares de pessoas continuavam a chegar de todos os pontos, a pé, a cavalo, de automóvel, caminhão, de todas as formas possíveis.

Quatro horas da tarde... Surge no céu o primeiro avião do exército. Depois outro. Lançam-se de ponta para baixo, em voos arriscadíssimos, passando a dois metros do telhado da casa do Padre Velho. Duram muito tempo os voos. É a homenagem sentida que os aviadores prestam ao grande vulto brasileiro que cai... Desceram depois no nosso campo, vindo pessoalmente trazer uma riquíssima coroa, em nome da aviação militar.

A cidade é uma colmeia imensa; colmeia de 60 mil almas, aumentada por mais de 20 mil, que chegaram de fora. Nenhuma casa de comércio, de gênero algum, barbearias, cafés, bares, nada abriu. A Prefeitura decretou luto oficial por três dias. O mesmo imitaram as cidades do Crato, Barbalha e outras. Todas as sociedades e sindicatos têm o pavilhão nacional hasteado a meio-pau com uma faixa negra, em funeral.
(20 de julho de 1934)
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Cinquenta anos de saudade
Pedro Bandeira (1984)

Escrito por ocasião dos 50 anos da morte do Padre Cícero, em 1984.

Decantei a Natureza
Que é a quem mais me dedico
Falei da vida do rico
Cantei saudade e tristeza
Senti agora a surpresa
De uma nova inspiração
Era a voz do coração
Dizendo — poeta forte
Faça uns versos sobre a Morte
Do Padre Cícero Romão.

Subi à Serra do Horto
Chorando pelo caminho
Sem saber se meu “Padrinho”
Se encontrava vivo ou morto
Voltei sentindo o conforto
Da santa luz da verdade
Porque toda humanidade
Diz que quem morre p’ra o mundo
Nasce em menos de um segundo
P’ra história da eternidade.

Quando apagou-se uma luz
Uma estrela se acendeu
Padre Cícero não morreu
Foi só falar com Jesus
Seu corpo deixou a cruz
Sua alma subiu mais forte
Sem precisar de transporte
Foi pedir felicidade
Para o povo da cidade
Do Juazeiro do Norte.

Completa cinquenta anos
Do desaparecimento
Voou nas asas do vento
Envolvido em brancos panos
Sua alma cheia de planos
Rasgou o véu da aurora
Dizendo: “Não vou embora”
Vou para o Céu que Deus fez
Rogar a Deus por vocês
Nos pés de Nossa Senhora”.

Nosso querido pastor
Partiu deixando saudade
Foi pedir p’ra humanidade
Luz, esperança e amor.
P’ra nós um século de dor
Em meio século de morte.
“Meu Padim” pegue um transporte
Venha visitar de novo
Seu pobre e humilde povo
Do Juazeiro do Norte.

Sua cidade cresceu
Desenvolveu velozmente
Porém, está diferente
Este lugar que ainda é seu.
Depois que o senhor morreu
Nem todo mundo vai bem.
Gozam dez e sofrem cem.
Um rico e outro com fome
“Querem até mudar o nome
Que a sua cidade tem”.
(20 de julho de 1984)
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Exaltação ao Padre Cícero

Pedro Bandeira

Desperta romeiro amigo
Acorda todo sertão,
Vamos rever a História
do Padre Cícero Romão.

Ó! Grande levita,
o povo acredita,
canta, chora e grita
emocionado.
A tua memória
ficou na História,
na fé e na glória
de um povo cansado.

Quem estuda tua História
com muita razão descobre,
quem dedicou a existência
à causa de um povo pobre.

És do Juazeiro,
o marco primeiro.
O Brasil inteiro
faz uma oração.
A fé continua e,
na praça e na rua,
esperam a tua canonização.

Teu nome é um sol que brilha
na vida de um mundo novo,
és santo, porque ser santo,
é ser querido do povo.

Teu cinquentenário
de morte é um cenário
onde o rosário
não para um momento.
A tua humildade,
trabalho e bondade,
dão eternidade
ao teu pensamento.

Teu corpo está sepultado
na Igreja do Socorro
teu monumento no Horto
deu vida à crista do morro.

Teus dias tristonhos,
conselhos e sonhos,
martírios medonhos
serviram de glória.
Taumaturgo forte
na vida e na morte,
não vejo quem corte
TEU NOME DA HISTÓRIA.
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A morte de um justo
Dr. Edvan Pires

Foi um messiânico puro, um asceta,
Num meio e época difíceis.
O seu apostolado discutido
Criou um fenômeno social.
Não o subestimasse a pastoral
Local, não teria havido tanto mal.

Viveu noventa anos. O seu ideal
Era ser vigário de um povo,
Ao qual tudo faltava: Pão e Fé.
Por algum tempo este Padre foi,
O vigário do povo sofredor
Ao qual deu-lhe carinho, paz e amor.

Porém, a maldade do destino
Duramente soprou-lhe a vida
E as Ordens Sacras foram-lhe negadas.
Começava sua via-crucis,
O p Padre deixou de ser vigário,
Não podia mais celebra Missa.

Muitos dos seus superiores,
Atormentaram sua vida sofredora,
E ele a todos manso, se humilhava,
Pois ele amava a Deus,
A sua Igreja amava,
Mas tudo em vão, nada justificava,
E ele a todos, em Cristo perdoava.

Quantas décadas! Em busca da licença,
Pra seu povo poder abençoar,
P’ra sua Missa poder celebrar,
P’ra receber enfim, os seus romeiros,
Mas sempre o NÃO.
Depois vem a tortura moral:
Teria de público dizer,
Que era mentira o que acreditava.

Quantas décadas de obediência!
Igual tempo passou com paciência,
Esperando ir ao altar,
A fim de celebrar.
“Mártir da Dsiciplina”!
O teu pecado, não foram os “milagres”,
Ou “fatos extraordinários” que presenciaste,
E que a ciência de então,
Não soube elucidar,
Mas a devoção que o povo tinha a ti,

À tua virtude, ao teu desprendimento,
Ao teu heroico e estoico sofrimento,
Devoção esta que mais se acentua,
Com o passar do tempo.

Tinha então noventa anos o ancião,
Contudo, a lucidez continuava,
Mas a saúde aos poucos lhe faltava,
Estava perto o fim.
Certo dia, pela madrugada,
Começa a agonia,
A pressão baixa, o pulso incerto, o suor frio,
Significavam o ponto final,
De uma vida voltada para o Bem.

O médico e as pessoas piedosas
Que o assistiam, se ajoelharam,
E o moribundo, a certa altura,
Num esforço extremo,
A custo, os olhos abre,
E quase num murmúrio,
Diz aos presentes:
“Vou pedir à Mãe das Dores por vocês”,
Depois disso calou-se
E plácido morreu.

“Plantador de cidade”!
Padre Cícero!
Se tua vida foi longo martírio,
Tua obra foi um florilégio,
Que perfuma tua grande cidade
E todo o Nordeste sofredor.
As sementes do bem, aqui lançaste.

Não se perderam, crescem dia-a-dia,
No coração do povo nordestino.
Tua presença sempre há de ficar,
Porque a todos soubeste sempre amar.

Quando a História um dia estudar,
Isenta das paixões e da inveja,
A tua vida com seriedade,
Dirá que foste um justo,
E como tal, a generosidade,
Aflorará no coração dos ímpios
Que te fizeram tanta crueldade,
Tanta torpeza, tanta mesquinhez,
E que perdoaste com tanta altivez.

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