quinta-feira, 7 de junho de 2012

23 anos sem Nara Leão

Grifo nosso # 30

Trecho de uma história que se passou no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1972, realizado pela Rede Globo:

"(...) No dia seguinte era a vez de [Sérgio] Sampaio. [O guitarrista Renato] Piau conta: 'bem na hora da gente tocar, o Sérgio comprou a primeira briga de sua carreira: discutiu com um câmera da TV Globo que, por uma por uma questão de estética, talvez, não queria me focalizar'. 'Mas como não pode focalizar meu parceiro? A gente ensaiou a introdução assim, um olhando pro outro, não vamos mudar agora'. Resolvido o impasse, Sérgio interpretou, meio claudicante, a marcha-rancho 'Eu quero é botar meu bloco na rua', não chegando a empolgar muito a audiência — talvez, pelo arranjo intimista de violões, ineficaz perante a barulhenta plateia do Maracanãzinho, um fator que prejudicou outros artistas, inclusive Gal Costa, Gilberto GIl e o argentino Astor Piazzolla, atrações especiais do festival. Mesmo assim, ao terminar sua parte, o cantor foi cumprimentado pela presidente do júri, Nara Leão, que desceu aos bastidores especialmente para conhecê-lo.

Na mesma noite, divulgadas as 10 classificadas para a final nacional, veio a surpresa: 'O Bloco' não estava entre elas. Foi aí que Nara resolveu virar a mesa. 'Esse festival será lembrado por essa canção', ela declarou, e tratou de pressionar os jurados a reverem seus votos e classificarem 'O Bloco' de qualquer jeito. Muitas discussões depois, foi feita uma mudança no regulamento que resolveu a questão: em vez de 10, seriam 12 as finalistas. Assim, através dessa manobra, 'O Bloco' e 'Nó na cana' (de Ary do Cavaco e César Augusto) passaram à fase seguinte do festival'."
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Rodrigo Moreira, em Eu quero é botar meu bloco na rua: a biografia de Sérgio Sampaio (Editora Muiraquitã, 2000).


O pequeno relato que reproduzimos acima serve apenas como um dos tantos exemplos que podem ilustrar a importância e influência da figura de Nara Leão na história da música popular brasileira na segunda metade do século XX. O episódio relatado foi fundamental para divulgar a canção de Sérgio Sampaio, que acabou virando o grande sucesso de 1972 (não venceu o Festival, mas hoje pode ser considerada uma das melhores e mais conhecidas músicas daquele ano).

Quanto à Nara Leão e sua trajetória...: na segunda metade dos anos 1950, Nara ainda era uma jovem aspirante a cantora quando realizava no seu apartamento, na Zona Sul carioca, 'reuniões-festinhas' que ajudaram a definir o som da Bossa Nova — a cantora acabou por ganhar, inclusive, o título de "musa da Bossa Nova".

Anos depois, mais precisamente em 1964, juntou-se a Zé Keti (representando a voz do morro) e João do Vale (a voz nordestina) para apresentar o show-manifesto Opinião, ajudando a inaugurar a era da chamada "música de protesto". E quando teve que deixar o espetáculo por problemas na voz, em 1965, foi ela quem descobriu na Bahia o talento da jovem Maria Bethânia e a levou para ingressar no elenco de Opinião. Maria Bethânia fez grande sucesso com a intepretação de "Carcará" e o resto é história.

A inquietude artística de Nara não parava por aí: participou do movimento Tropicalista, em 1968, promovendo trabalhos que não se misturavam com o tipo de música de protesto feito por ela outrora. Junto aos tropicalistas, não se fechou na proposta de divulgar exclusivamente a "música de raiz brasileira", e aceitou as novidades trazidas e divulgadas mundialmente pelo rock da época. A foto (colorida) ao lado é a capa do chamado "Disco Tropicalista" de Nara, de 1968.

Nara Leão seguia sua carreira, gravando discos esporadicamente e gozando de um certo prestígio nos bastidores (como, por exemplo, o cargo de presidente do júri do Festival Internacional da Canção, que mencionamos no início da postagem).

Outros fatos que merecem ser destacados na carreira da Nara: em 1966 interpretou a canção "A Banda", de Chico Buarque, que venceu o Festival da Música Popular Brasileira da Record; integrou o elenco, em 1972, do filme Quando o Carnaval Chegar (dirigido por Cacá Diegues), ao lado de Chico Buarque e Maria Bethânia; participou do disco infantil Os Saltimbancos, em 1977; e em 1978 foi uma das primeiras intérpretes a destacar o valor artístico da parceria entre Roberto Carlos e Erasmo Carlos: gravou o disco Debaixo dos caracóis dos seus cabelos (ou ...E que tudo mais vá pro inferno), apenas com composições da dupla, fazendo um grande sucesso com a canção "Além do Horizonte".

A trajetória de Nara Leão foi interrompida no dia 7 de junho de 1989. Sua morte foi causada por um tumor no cérebro, contra o qual Nara batalhou durante anos.

"Além do Horizonte" (Erasmo Carlos / Roberto Carlos):

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